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Onde Cantam os Pássaros, um livro visceral sobre solidão e um passado inescapável

• 16/06/2016

Em Onde Cantam os Pássaros, uma fazendeira leva uma vida simples numa ilha inglesa. Acompanhada de rochedos, um clima inóspito e um cachorro chamado Cão, Jake White vive sozinha e tem uma rotina simples, em que tosquia e cuida de um rebanho de ovelhas – uma habilidade que aprendeu quando jovem, na Austrália, sua terra natal.

Porém, sua tranquilidade e segurança são ameaçados quando, de tempos em tempos, uma de suas ovelhas aparece morta. Destroçadas, na verdade, sempre em pedaços ou mortas de maneira violenta. Os ataques podem ser obra das raposas que habitam a floresta próxima à sua fazenda… ou algo muito pior.

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Publicado pela DarkSide Books, Onde Cantam os Pássaros foi uma das minhas melhores leituras do ano passado – e entrou pra minha lista de favoritos da editora. Ele faz parte da coleção DarkLove, que reúne livros escritos por mulheres com histórias para corações românticos e valentes, com enredos sensíveis e com aquela pitada de quem aposta no escuro.

Eu tentei, mas achei bem complicado fazer uma resenha completa do livro. É uma história com tantos detalhes e mistérios que senti que uma resenha não seria suficiente. Então, decidi fazer uma resenha em tópicos, com motivos mais objetivos para você dar uma chance ao livro. Sério, é maravilhoso. Jeito perfeito de conhecer a coleção, que reúne outros títulos maneiros como O Último Adeus, A Menina Submersa e The Kiss of Deception.

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Leitura que incomoda

A capa pode ser rosa e ter elementos fofos como formiguinhas e pássaros, mas não se engane: Onde Cantam os Pássaros é uma leitura que incomoda, inquieta e perturba qualquer um. Embora instigue pelo clima hostil e cheio de mistérios, daqueles que dão vontade de dar uma de Sherlock Holmes e desvendar enigmas, a trama passeia por temas mais sérios, entre eles estupro e violência doméstica.

Para quem tem medo de ler os livros da editora, relaxa aí: o livro fica mais próximo de um drama ou suspense psicológico. Aliás, os livros da DarkLove são leituras mais suaves, de certo modo. Uma alternativa pra dar uma chance pra Caveira. Para quem curte análises mais aprofundadas, vale conferir este post, escrito pela Juliana Fiorese, em que ela analisa os detalhes da colagem na capa.

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História sobre redenção

Imersa numa vida de reclusão e isolamento, Jake é cercada de mistérios. Reservada, cheia de marcas do passado e problemática, ela não é uma personagem agradável, mas é possível simpatizar, de um jeito bem subjetivo, com ela.

A personagem precisa aceitar seus erros e tudo que vem com ele – sentimentos como perda e culpa, por exemplo. É um fato: todo mundo tem um passado, e nem sempre é possível fugir dele. Com o tempo, entendemos que acontecimentos muito tristes marcaram a personalidade de Jake – e sua preferência pela solidão se torna compreensível.

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Estrutura narrativa interessante

O livro apresenta duas linhas temporais e duas tramas paralelas. A impressão que fica ao terminar a leitura é que Evie Wyld escreveu o livro, depois cortou diversos fragmentos e misturou tudo. A história é narrada de forma extremamente não-linear; nela, o presente é narrado progressivamente, mas o passado é revelado do acontecimento mais recente até o mais antigo.

Além disso, ela utiliza tempo verbal presente para narrar o passado. Com isso, Evie Wyld mostra que o passado de Jake está mais vivo na memória da personagem do que os acontecimentos do agora (que, por sua vez, é narrado no passado). Parece confuso, mas faz sentido. E a graça do livro é justamente essa, seguir a leitura mesmo sem ter certeza do que está acontecendo até o momento em que encaixa, sabe? A autora não dá pistas no começo dos capítulos, colocando datas ou outras informações. O leitor fica por conta própria.

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Leitura ágil e gostosa

Achei que fosse demorar um pouco para me acostumar com essa narrativa toda maluca, mas Evie Wyld me fisgou. Porém, preciso dizer que gostei ainda mais do estilão dela: ela não economiza palavras, nem escolhe termos. A linguagem é extremamente crua, visceral e ao mesmo tempo poética. Ela dá detalhes, faz descrições, constrói toda uma ambientação, mas sem ser chata. Outro ponto positivo são as notas de rodapé, que esclarecem termos da cultura australiana (bem viva na história, por sinal).

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Final que pode (ou não) ficar em aberto

Onde Cantam os Pássaros não é aquele livro que você vai terminar e simplesmente colocar na prateleira. Você provavelmente vai querer reler as últimas páginas ou dar outra chance para aquele trecho que pode significar algo mais, lá no começo. E talvez signifique, talvez não. Evie Wyld escreveu um enigma. É uma leitura que exige do leitor, que deixa algumas pontas soltas que, com uma leitura mais atenta, podem ser amarradas… ou não.

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Uma autora premiada

Evie Wyld foi selecionada em 2013 pela revista Granta entre os melhores jovens escritores britânicos da década. Aliás, ela é dona de uma pequena livraria independente no bairro de Peckham, em Londres. A Review Bookshop possui um jardim, é dog friendly (ou seja, CATIOROS!), realiza o Peckham Literary Festival e vende os melhores livros de grandes e pequenas editoras.

Onde Cantam os Pássaros conquistou prêmios tradicionais como o Barnes & Noble Discover Award, o britânico Jerwood Fiction Uncovered Prize, e o mais importante prêmio australiano, Miles Franklin Award.

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Um livro para reler

É sério, você vai ficar com vontade de reler Onde Cantam os Pássaros um tempo depois. É normal ler uma história e, com o passar do tempo, ficar com os detalhes borrados. E em muitos casos isso não faz muita diferença, mas este livro me deu a impressão de que vou ficar com vontade de visitar as memórias de Jake mais uma vez. E acho que não vai demorar muito.

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Muitas vezes fiquei me perguntando se os acontecimentos do livro são reais ou apenas obra de uma mente traumatizada. Acho que não dá para saber. Ou talvez dê. Às vezes eu acho que saquei o livro, mas outros dias penso que não entendi absolutamente nada.

O que eu sei é que Onde Cantam os Pássaros conta a história de uma mulher que foge do passado, mas percebe que nunca vai conseguir escapar dele completamente. Nossa inocência muitas vezes se perde no meio do caminho, e os desvios da vida podem desafiar qualquer resquício de esperança. Pode custar muito enfrentar essas memórias e, no meio disso tudo, encontrar perdão – e uma maneira de lidar com tudo, sozinho ou acompanhado, resignado ou inconformado. Mas temos que seguir em frente, sempre.

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