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A história real de Spotlight, uma homenagem ao jornalismo investigativo

• 07/06/2016

Em 2002, o jornal The Boston Globe publicou uma série de reportagens para denunciar uma sucessão de abusos de crianças; os artigos, ao todo mais de 600, chocaram não só a comunidade local, muito religiosa, mas o mundo. Durante anos, crianças foram molestadas sexualmente por padres, que saíram impunes, acobertados pelas autoridades religiosas. As denúncias feitas pela equipe de jornalistas resultaram no afastamento de 249 padres.

Tudo começa com a chegada de um editor (Liev Schreiber) à redação do jornal, que na época começava a sentir as mudanças provocadas pelo crescimento da web. Com um faro jornalístico apurado, ele logo enxerga uma pauta em crimes cometidos pela Igreja que, até então, foram ignorados pelo resto da cidade. Ele logo repassa a tarefa aos repórteres do Spotlight, time de jornalismo investigativo chefiado por Walter Robinson (Michael Keaton).

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Não muito tempo depois, os jornalistas – Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), Mike Rezendes (Mark Ruffalo) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) – descobrem que a história é muito maior do que eles imaginavam e envolve cerca de 70 padres.

Logo fica claro que os religiosos nunca eram punidos por seus atos, apenas temporariamente afastados de seus cargos. Além disso, não somente a Igreja estava envolvida: até a cidade como um todo ajudava a ocultar esses crimes. E, assim como descascar uma cebola, a história foi apresentando várias camadas: advogados corruptos que faziam acordos compensatórios e até uma falha dentro do próprio The Boston Globe, que não investiu na pauta e deixou o assunto passar batido.

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Vencedor do Oscar na principal categoria da noite, Spotlight é o tipo de filme que inspira qualquer estudante de jornalismo a fazer carreira no jornalismo investigativo. Sem sensacionalismo e com um tom sóbrio, o filme não deixa de lado o heroísmo da profissão (e a missão de contar a verdade, custe o que custar), mas também não engana o público.

Muita gente acha que o jornalismo é uma profissão glamourosa, que todos os repórteres têm privilégios para entrar em lugares, conseguir informações e uma lista imensa de contatos para os quais podem ligar a qualquer momento. Não é bem assim. Em uma das cenas, o repórter Mike Rezendes entra correndo em um tribunal para acessar um arquivo extremamente importante. Mas tudo o que ele consegue é uma porta na cara; a repartição estava fechada, e ele teria que voltar no dia seguinte.

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Mesmo com um ar de suspense, Spotlight é cheio de cenas envolvendo muitas xícaras de café, planilhas e pilhas de papéis que precisam ser relidos. Exemplo perfeito de como heróis podem ser pessoas comuns, com roupas surradas, noites sem dormir e problemas na vida pessoal que precisam ser resolvidos mesmo com tudo o que está acontecendo.

Eles são humanos, sabe? A história não endeusa nenhum dos personagens, só mostra o retrato de jornalistas que realmente conseguiram fazer diferença, coisa que muitos profissionais do ramo almejam, mas dificilmente conseguem alcançar.

O filme tem um leve clima de tensão, que fica mais à flor da pele em algumas cenas. Numa delas, por exemplo, Sacha Pfeiffer vai conversar com um padre que admite na cara dela que costumava abusar de crianças, e a pior parte é que ele está convicto de que não estava fazendo nada de errado. Claro que a repórter logo engata em uma entrevista às pressas; bater na porta da casa de alguém raramente resulta em uma confissão assim, na cara dura, então ela fica chocada e até meio atrapalhada. Mas não dá para investir muito: logo uma mulher chega, de dentro da casa, e manda ela pastar.

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Em outra, Matt Carroll descobre que é vizinho de um dos padres pedófilos. Ele escreve um bilhete aos filhos, pedindo que eles fiquem afastados da casa. Depois, quando as notícias são publicadas, ele deixa um exemplar do jornal na porta da casa do sacerdote.

Para quem tem uma visão romantizada da profissão e precisa de um choque de realidade, mas que ainda assim traz um pontinha de esperança, recomendo muito o filme. Ele destrincha a prática jornalística, frisando a importância da objetividade, da imparcialidade e da precisão.

Mas, mais do que isso, ressalta como o jornalismo é uma arma de denúncia. Sabe, gente que tem um senso de propósito e permanece fiel a ele, mesmo que tudo ao redor esteja se fragmentando. Além disso, mostra que um bom trabalho não precisa ser, necessariamente, feito por apenas uma pessoa. Uma cutucada na ferida de quem prefere sempre fazer tudo sozinho e carregar mil e uma responsabilidades nas costas.

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No ramo jornalístico há tantos fatos que passam batidos, tantas perguntas que permanecem sem resposta porque ninguém fez as perguntas certas. Filme de referência, Spotlight é aquela luz de esperança, sempre com os pés no chão. Mas vale o lembrete: a história completa é algo extremamente difícil de alcançar (e praticamente impossível). Não dá para saber de tudo, sempre.

Em tempos em que textões no Facebook viram verdade absoluta, foi bem legal ver um filme sobre o papel do jornalista e, principalmente, sobre a importância do jornalismo feito com profundidade. Aliás, o livro que também revela a história – e que recebeu um prêmio Pulitzer – foi publicado pela editora Autêntica.

Segundo uma matéria da Folha de S. Paulo, embora o The Boston Globe tenha recebido diversos prêmios e as matérias tenham trazido prestígio ao jornal, isso não evitou que ele passasse por um processo de declínio. Em 2002, quando as reportagens foram publicadas, a circulação paga caiu 11%. Hoje em dia, apenas 200 mil cópias do jornal são vendidas, contrastando com as 413 mil da época. Além disso, duas em cada cinco vagas de jornalistas nas redações norte-americanas foram fechadas desde 2002.

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