Garota Replay – Tammy Luciano

• 10/12/2012

Thizi é uma garota de sorte, pelo menos para alguns. Ela mora em um apartamento bem localizado na Barra da Tijuca, acompanhada apenas de sua empregada, Nil, que cuida de Thizi há quinze anos e é praticamente da família – uma espécie de mãe com carteiragarota replay.indd assinada. Como seus pais estão sempre viajando, Thizi passa boa parte do tempo sozinha, mas aprendeu a se virar e a ser independente. Ela tem um carro amarelo novinho em folha, um melhor amigo, Tito, que é o cara mais legal do mundo e que Thizi ama de paixão… mas que não é seu namorado, e nem ela mesma sabe explicar o porquê.

Parece bom, não é? Em alguns momentos é mesmo. Ainda assim, Thizi é uma garota cheia de problemas, boa parte deles causada pelo seu namorado, Tadeu. Em uma noite que vira a vida de todos do avesso, Tito pega Tadeu traindo sua melhor amiga. Os dois começam uma briga que deixa Tito gravemente ferido no rosto e que desloca seu nariz. Completamente fora de si de tanta raiva, Tadeu dirige bêbado e acaba batendo o carro contra um poste, deixando seu amigo Gabiru, que estava com ele no carro, em coma e à beira da morte. Na mesma noite, Thizi se depara com uma garota exatamente igual a ela, e é aí que a história começa a se desenrolar.

Garota Replay é o segundo romance de Tammy Luciano. A autora também já tinha publicado sua primeira obra de ficção, Sou Toda Errada, a biografia Fernanda Vogel na Passarela da Vida e o livro Novela de Poemas. Eu decidi comprar Garota Replay por um impulso na Bienal do Livro desse ano. Confesso que não foi uma história que me instigou com a sinopse, mas depois de bater um papo com a Tammy sobre publicação e outras coisinhas lá na Bienal, tudo mudou. Eu não sabia o que pensar da história… mas acho que posso dizer que ela me surpreendeu positivamente e negativamente.

O livro se sustenta por causa do mistério da replay. A situação é muito intrigante, afinal, o que fazer quando você vai para a balada esfriar a cabeça e dá de cara com uma versão melhorada de você? A clone, a fantasma, a gêmea perdida é mais bonita, tem cabelos hidratados, pele macia, um olhar brilhante e um semblante de realização… Thizi paralisa, é claro. E fica ainda mais chocada quando a replay se aproxima dela e a chama de idiota.

Eu li algumas resenhas que afirmam que Thizi não se comporta de acordo com uma garota de 20 anos, e sim como uma de 15. Disseram que a história funcionaria melhor se ela fosse uma adolescente, pois ela pensa e age como alguém dessa idade. Não concordo. De fato, ela não tem um pensamento muito maduro. Thizi é mimada e um tanto contraditória, o que me irritou bastante. Mas eu fiquei com a impressão de que isso foi proposital. Thizi tem uma vida praticamente ganha. Mora sozinha, tem um carro e todas as contas e despesas pagas pelos pais. O que esperar de uma pessoa que recebe tudo de bandeja – em alguns momentos literalmente, por causa da empregada mais fofa do universo? O foco do livro é, sem dúvidas, o amadurecimento. Se por um lado morar sozinha fez de Thizi uma pessoa independente, estar diante de problemas de verdade bota em xeque tudo isso, revelando uma pessoa bastante insegura.

O mais estranho foi ninguém perceber duas iguais no mesmo recinto. Ou será que alguém deveria se preocupar com duas pessoas idênticas? Afinal, gêmeos convivem por aí em toda parte. Ninguém olhou para mim e depois para ela, chocado com a nossa semelhança. Nossa… minha cabeça não sabia nem como processar aquela imagem. Honestamente, tirando o visual arrumado da moça, nós éramos as mesmas. Resolvi dar um tchauzinho, mas a garota não reparou. Um cara falou alguma gracinha, a vi sorrir.

A história, apesar de ser bem parada no começo, engrena na metade do livro e deixa você ávido para saber como tudo vai terminar. Como eu disse antes, o livro se apoia na questão da replay – quem ela é, de onde vem e o que quer -, então como a autora vai dando dicas sobre isso durante a história, é mesmo difícil parar, por mais que alguns aspectos incomodem um pouco. Algumas revelações são surpreendentes, mas a história em si é bem clichê. O fim também é previsível.

Uma coisa que me perturbou bastante foi a relação entre a Thizi e o Tito (deixando claro aqui que Thizi terminou com o Tadeu porque o cara é um cretino). Achei que a Tammy pegou pesado no conceito de friendzone, excluindo para o leitor qualquer possibilidade de que Tito se torne um mocinho em potencial. Ele é perfeito e devoto demais, e eu não gosto de quando o mocinho é construído dessa maneira. O que eles sentem um pelo outro convence, mas o caminho que Thizi percorreu para chegar até lá me pareceu muito repentino. Também achei os nomes dos personagens meio esquisitos, mas isso é cisma minha mesmo.

Eu gostei da mensagem que o livro passa sobre acreditar para ver acontecer. Acho que todo um “conceito” de fé esteve presente no enredo. Mas não é uma fé religiosa, e sim uma que te aconselha a encarar você mesmo, com defeitos, imaturidades, problemas e inseguranças. Acho que tudo o que a Thizi passou a fez entender que uma pessoa só pode ser feliz se ela aceitar quem ela é, sem levar em conta a opinião dos outros. E eu acho que é bem por aí.

Depois de ler Garota Replay fiquei muito curiosa para ler Sou Toda Errada, que fala sobre uma garota que é obrigada a lidar com si mesma após o término de um relacionamento. A história parece ser mais adulta… acho que vou gostar bastante desse olhar.

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