ZOMBIEEE

Como seria viver num mundo dominado por zumbis em A Noite dos Mortos-Vivos

• 29/10/2015

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É difícil não conhecer o clássico A Noite dos Mortos-Vivos. Se os zumbis alcançaram o sucesso com The Walking Dead e Resident Evil nos dias de hoje, é porque alguém lá atrás decidiu criar uma história que quebrou paradigmas e revolucionou o cinema de terror. Isso aconteceu em 1968, com a estreia do filme que eu ainda não assisti WHAT A SHAME que marcou a carreira do cineasta George Romero.

É importante lembrar que Romero, embora seja mais conhecido, não é o único por trás das histórias dos comedores de carne que tanto conhecemos. Escritor e diretor, John Russo foi corroteirista do longa e, em 1973, decidiu transformar o roteiro do filme numa adaptação literária. A edição brasileira foi lançada pela DarkSide Books em brochura e capa dura.

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A Noite dos Mortos-Vivos reúne tudo aquilo que podemos esperar de um livro do gênero. Em um mundo dominado por pessoas que morreram, mas que retornaram à vida ansiando por dilacerar aqueles que ainda respiram, é impossível contar uma história sem violência, tensão, carnificina e sangue. Muito sangue.

O livro apresenta o apocalipse zumbi de um jeito simples: Bárbara está no cemitério com seu irmão, visitando o túmulo do pai, quando um estranho surge do nada e ataca o rapaz. Desesperada, Bárbara foge e acaba encontrando refúgio em uma casa isolada, que eventualmente se torna o porto-seguro de um pequeno grupo de pessoas.

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É muito interessante ver como o instinto de sobrevivência fala mais alto até mesmo para o leitor. Ver os personagens em ação, tomando decisões e precauções para garantir o mínimo de segurança, despertou em mim um misto de sentimentos; tudo muito próximo de como seria a realidade, no fim das contas. Ansiedade para que eles terminassem as barreiras logo, frustração com personagens que entraram em estado catatônico, raiva quando alguém fazia uma sugestão idiota e todo mundo achava uma boa ideia.

A sensação de perigo iminente só aumenta com o constante lembrete de que, como o interior é afastado, as autoridades demoram para chegar e colocar ordem na situação. Ou seja, há zumbis para todos os lados e pouco a fazer a respeito além de sentar e esperar socorro.

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Um ponto que vale comentar é como o apocalipse zumbi se desenrola. No caso, não é um apocalipse que aniquila a população, mas apenas um fenômeno momentâneo e peculiar que pode ser controlado pelas autoridades. Como um surto de uma doença qualquer, eu diria. Só que com mais sangue e mortes.

Mais do que uma simples história de terror, o livro e o filme se tornaram marcos na cultura pop e, até hoje, servem de referência para versões contemporâneas. Todas as questões levantadas em relação ao instinto de sobrevivência e ao fenômeno são extremamente relevantes; o que impera é manter um relacionamento civilizado com as outras pessoas em um ambiente de caos e tensão. É como The Walking Dead, que prefere explorar a transformação dos personagens em criaturas tão perigosas quanto os zumbis em vez de tecer explicações sobre a praga.

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A Noite dos Mortos-Vivos também transgrediu alguns paradigmas da época: o protagonista, negro, se torna líder do grupo enquanto o norte-americano branco é retratado como um covarde egoísta. Mas há um porém: a personagem Bárbara, que durante a maior parte do tempo não faz absolutamente nada além de ficar em estado de choque, incapaz de raciocinar ou fazer algo de útil. Senti falta de um girl power aí.

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A Volta dos Mortos-Vivos (que não tem nada a ver com a comédia trash lançada em 1985), tão repugnante e descritivo quanto o primeiro livro, permanece inédito nos cinemas até hoje. O título funciona como uma continuação, embora tenha personagens diferentes.

A história se passa dez anos depois dos acontecimentos de A Noite dos Mortos-Vivos. A crise já foi há muito tempo controlada e todos tentam esquecer os horrores do passado e seguir em frente. Ainda assim, algumas pessoas do interior cultivam o hábito de martelar uma estaca nos crânios dos mortos para impedir que eles retornem à vida (outra regra que foi mantida nas histórias de zumbis até hoje: sempre atire na cabeça!).

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Quando um acidente envolvendo um ônibus não deixa sobreviventes, logo a pequena cidade do interior dos Estados Unidos começa a ser infestada de zumbis novamente. Neste livro, John Russo apresenta a família Miller, um grupo de saqueadores e uma dupla de policiais que anda junto com o azar.

Eu particularmente gostei muito mais de A Volta dos Mortos-Vivos. Primeiro há a narrativa, que é mais ágil e dinâmica. Depois os personagens, que são mais reais e carismáticos. E o fato de o livro envolver perseguições e fugas no auge do pânico, daquele jeito que a gente já conhece, deixa claro que a obra é um brinde aos fãs do gênero. O final é ótimo, de um jeito agridoce já esperado.

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Sempre apresentando reviravoltas e mantendo aquela agonia pelo destino incerto no ar, o autor traz uma nova interpretação para o caos, traçando um retrato ainda mais fiel do apocalipse zumbi: como uma sociedade em frangalhos ou em crise pode despertar o pior lado das pessoas, o lado mais mesquinho e cruel.

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Na introdução, John Russo revela detalhes sobre o processo de criação dos livros e dos filmes e frisa que o livro não é uma comédia de terror. E posso falar? Não é mesmo.

Se os mortos realmente ressuscitassem, e se eles se tornassem devoradores de carne, talvez pudessem ser temporariamente subjugados -, mas tal como uma doença difícil de erradicar, a possibilidade de uma nova ‘peste’ estaria sempre conosco. Cultos religiosos brotariam no rastro dos mortos-vivos. Talvez eles acreditassem que os mortos ainda precisavam ser queimados ou ‘perfurados’ com estacas. E então o que aconteceria? As macabras expectativas do culto se tornariam realidade? Os devoradores de carne voltariam? Essa foi a pergunta a que procuramos responder de uma forma poderosamente dramática em nossa continuação. O que sem dúvida não é nada engraçado. Em outras palavas, ao contrário do filme, este livro não é uma comédia de terror.

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